quinta-feira, 18 de outubro de 2007

"ELOGIO AO AMOR" - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se
apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já
ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por
uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão
ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.
Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa
das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão,
fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se
sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se
numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que
devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma
questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se
apaixonarem de verdade,
ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido,
do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de
conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas
como os de hoje incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de
um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de
cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas,
alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do
romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a
paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo,
o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração
e que nos canta no peito ao mesmo tempo?


O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma
ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a
pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da
tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos
casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance,
gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.
Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É
essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender,
não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como
não pode.
Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar,

para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um
bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A
"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não
é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma
condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor
não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se
sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a
correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão
é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O
amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é
mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o
coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém.
Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O
coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e
durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos
acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não
se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,
viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não
se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o
amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."



sábado, 13 de outubro de 2007

Não conheço grandes generais



Em 1881, um jovem general de nome Kunio Kitagaki, afamado burocrata, famoso por conseguir a estrutura necessária para fazer de Kyoto um pólo industrial, estava a viajar em negócios, e como grande "general Kitagaki" era recebido com todas as honrarias, e começava a gozar de prestígio em todo o Japão. Mesmo diante do Imperador era tratado com enorme respeito. Um dia ele foi visitar o seu velho amigo, o monge do templo Tofuku. Ao chegar, disse a um monge noviço: "Diga ao Mestre que o grande general Kitagaki está aqui." O noviço foi ao seu mestre e disse: "Mestre, o Grande General Kitagaki está aqui." O mestre respondeu: "Não conheço grandes generais...!" O noviço voltou à presença do militar com o recado, enquanto o velho sábio observava do pórtico: "Desculpe, o mestre não pode vê-lo. Ele não conhece nenhum "grande general." Inicialmente, o general ficou surpreendido, depois indignado, e finalmente compreendeu. Humildemente disse ao noviço: "Desculpe. Por favor, diga ao Mestre que Kitagaki deseja vê-lo." O monge assim o fez. Logo, o mestre aproximou-se com um sorriso e cumprimentou: "Ah, Kitagaki! Há quanto tempo! Por favor, entre."
OSU...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O motivo pelo qual o país anda ás avessas

Não resisto á crítica. Contrariamente ao preconceito que diz que os artistas são os alienados do condado e que as suas necessidades não têem em conta o estado do país, discordo severamente deste juízo de valor despachado. Quem fala de artes marciais fala obrigatoriamente de líderes, de campeonatos, de vencedores no ringue e na vida, mas fala sobretudo de estratégia e de inteligência. Pelos vistos há quem se disfarce de camisa pólo Burberrys, mas detenha atitudes semelhantes ao Hatsumi. Os professores do mau gosto nunca gostam de ser mandados calar mas mandam sempre calar os outros. Nas artes marciais, nos desportos de combate, na política e no futebol há sempre uma espécie de lei não escrita que obriga a códigos de moralidade. Estes códigos de boa conduta obrigava a que por exemplo, no futebol, de cada vez que um jogador se lesionava, ganhasse o direito á bola na etapa seguinte. Costumavam chamar-lhe fair-play. Já não existe isto. Nem no futebol, nem nas artes marciais nem em lado nenhum. Acabaram os acordos de cavalheiros (e das damas!) Esquecemos hoje o que prometemos ontem.

O discurso tem como cerne de questão José Mourinho. Afinal quem é este? Um miserável qualquer que se fartou de ganhar taças e títulos e deu a conhecer o nome de Portugal nos lugares mais longínquos. Sim, alguém disse que o mundo está louco. Assim o acredito. Um falhado interrompido por um vencedor! Sim, de facto o mundo está louco! Um vencedor que nem parece nascido nesta pátria de gente determinada a ser séria, sisuda, mal-disposta e sobretudo com um ódio mortal a vencedores! Realmente é uma indignação existir gente assim, que vai para Inglaterra ganhar milhões com uma brincadeira, alguém que usa casacos Prada e tenha o bom senso de ter a família á frente de tudo. Enfim, uma vergonha para o nosso país! Até dá vontade de dizer: "Que raiva voce ser tão "in"!" E dá vontade de responder: "Ó Zé mete-te na politica e larga o futebol!"

Ás vezes tenho tanta vergonha de, enquanto país sermos tão sensíveis ás intempérides, tão susceptíveis ao fácil, ao pequeno, e sobretudo tão esquecidos!

domingo, 7 de outubro de 2007

Artes Marciais /Desportos de Combate: que diferenças e semelhanças?

Revisão da Matéria
Diferenças prendem-se com:

1. Legado Histórico
2. Espírito de defesa/espírito de jogo
3. Objectivos do Treino
4. Estudo Técnico
5. Vertente espiritual da arte
6. Publico Alvo
7. Graduação e Hierarquia
8. Raízes
9. Espaço Físico

Eternamente encarados como duas faces da mesma moeda que nunca se encontram, são muitas vezes ignorados por aqueles que se encontram de um ou de outro lado da barricada. Históricamente, artes marciais e desportos de combate sempre fizeram parte da existência humana, quer na forma de rituais coreografados quer espontâneos, estes sempre despertaram uma grande curiosidade. Talvez por os heróis de tais encontros despertarem a libido feminina, estes confrontos sempre fizeram parte do imaginário e da realidade do homem, integrando uma parte da cultura marcial. A linha entre um lado e o outro não é definida e cruzam–se muitas vezes, por tocarem o mesmo objectivo: a defesa da vida. Muitos combates não possuam um carácter letal, sendo apenas um jogo de força e perícia, não tendo em mente a morte do adversário. Mais tarde, estes jogos evoluíram para combates de honra por uma causa determinada, onde se estudava a melhor maneira de abordar os adversários. Estes combates obedeciam muitas vezes a um rigoroso código de ética e a regras muito bem estabelecidas. A partir do inicio do século XX, a vida humana sedentarizou-se, as necessidades transformaram-se, começou-se a compreender que estas artes fortaleciam o espírito e a vontade e que tinham bastante utilidade no dia-a-dia, como forma de desenvolver as capacidades de raciocínio, estratégia, concentração, etc... Com a crescente importação de informação vinda do Oriente, as artes marciais orientais chegaram ao ocidente arrancadas a uma cultura de hábitos muito diferentes, sendo implantadas em países com histórias religiosas e culturais igualmente diferentes. Quais são então as diferenças entre artes marciais e desportos de combate?
Não é sempre claro compreender onde começa um e termina o outro.

Espírito de luta e espírito de jogo
A principal diferença entre ambos os sistemas parece permanecer nos objectivos de cada um: as artes marciais visam defender a vida e os desportos de combate visam ganhar um jogo. A arte marcial tem como objectivo preparar o praticante para um confronto com um oponente, este deve desenvolver competências para superar esse confronto. Independentemente de quais forem as estratégias. Literalmente, a lei é a lei da vida, não há regras. Mas dentro de um ringue existem-nas, de forma a salvaguardar a integridade dos praticantes. Os desportos de combate dedicam-se primeiramente ao culto do corpo, enquanto as artes marciais dedicam-se ao espírito. Isto também é claro se nos socorrermos das artes marciais japonesas como exemplo: a dualidade Jutsu/Do.as artes japonesas cujo sufixo é -jutsu estuda um treino, não a realidade. Na competição existem categorias por sexo e por idade. Um praticante não pode escolher o seu atacante, por isso treina-se o melhor que pode contra todos os tipos de atacantes. O praticante de um arte marcial, pratica dentro de um ambiente protegido, o dojo, o dojang ou kwoon (nomenclatura para a palavra "dojo" nas diferentes culturas) e mesmo dentro deste espaço, cada um deve assegurar a integridade dos seus colegas de treino, mas a sua dinâmica de treino pode aproximar-se tanto quanto possível de um luta real.

2. Técnicamente
Por forma a manter o treino de combate mais seguro, muitos estilos retiraram do seu currículo as técnicas consideradas letais. Estas preciosidades técnicas foram ficando esquecidas um outro dia até caírem no esquecimento. Numa competição, as técnicas admitidas são em muito menor número do que numa arte arte marcial. O objectivo do atleta de competição ou do desportista de combate é posicionar-se á frente do adversário na disputa de força e perícia. Nenhum deles pretende a anulação do outro. Se um artista marcial treina para vir a defender a sua vida, no momento em que é atacado deve saber que os conhecimentos que possui podem de facto matar. Ele deve saber medir as suas acções de forma a não provocar estragos desnecessários no atacante. É por isso que a formação interior espiritual num artista marcial se revela de uma importância primordial. Um artista marcial não é um individuo "normal". A prática atribuiu-lhe conhecimentos que lhe permitem posicionar-se em níveis distintos do comportamento humano. Esta profundidade de si mesmo e do mundo não é requerida ao atleta. Embora, este possa reagir favorávelmente marcialmente falando, ou seja obter efectividade prática em situação de combate real, o atleta de combate especializa-se num tipo de aproximação diferente. A sua aproximação reside na fiscalidade e na abordagem técnica ao individuo. Sem moralidades. "Sem códigos de ética." De igual para igual. Existem estilos que devotam maior ou menor importância á criatividade na execução das técnicas. Tal como no Aikido existe o takemusu. Mesmo os estilos mais tradicionais, com o passar do tempo vão modificando algumas das suas técnicas, tendo em conta as características da comunidade na qual se encontra inserida, ou a faixa etária ou outras particularidades dos praticantes. Muitas vezes mantem-se as bases e modificam-se ou aperfeiçoam-se aspectos. Mas assim é a arte, mútavel, ferramenta viva do estudo do ser humano.

3. A vertente espiritual.
Por terem sido transplantas de uma cultura com valores diferentes, leccionada por instrutores que muitas vezes estiveram pouco tempo expostos aos seus mestres, muitas vezes, a vertente espiritual de muitas artes deixou de existir, foi simplesmente banida ou foi secundarizada e ultrapassada pelos objectivos comerciais da arte. O treino das artes marciais inclui noções de honra e integridade. Cada aluno deve desenvolver a consciência da importância da informação que lhe é passada e que esta informação não deve ser usada indiscriminadamente. Muitas vezes incorre-se no erro de confundir vertente espiritual com falta de marcialidade. As duas coisas encontram-se intimamente ligadas. Quanto mais fortes somos, mais abertos e receptivos nos tornamos porque gradualmente conseguimos enfrentar e vencer aquilo que nos vencia: o próprio ego. O artista marcial ou atleta que se consegue ultrapassar a si mesmo, esse sim é o verdadeiro vencedor!
A artes marciais orientais foram criadas inseridas num sistema religioso especifico e num ambiente que determina que a arte apresente caraterísticas determinadas. A transposição dessas artes para o ocidente sofreu inumeras adaptações porque a equivalência cultural não é a mesma, embora muitos artistas usem a mesma terminologia ou vocabulário, de forma a que os alunos aprendam como se posicionar perante o mestre do instrutor. Assim, um dojo, tal como um ringue é a recriação mais ou menos aproximada de um local de combate. E mesmo de uma certa época no tempo. Aquilo que praticamos quando fazemos Krav-mag ou Aikido é sempre a representação da visão de um artista. Quando praticamos no ringue, também nos aproximamos da situação de confronto real. Tanto um dojo como um ringue são espaços de recriação de uma situação: a luta. Ambas são formas "protegidas" de estudar técnicas. Cabe a cada um o nível de aproximação da realidade.
As artes marciais baseiam–se na realidade, nos acontecimentos espontâneos da vida de cada um. É ai que reside o seu valor. Hoje em dia, muitos dojos por esse mundo fora tornaram-se apenas isso: um local onde se treina para se estar bem, para se ser magro, para se ser bonito. Uma arte marcial tem que ser mais do que isso.

4. Público Alvo
Os desportos de combate querem jovens que evoluam rapidamente, cuja preparação física seja elevada e que estejam dispostos a concorrer no mercado dos desportos de combate.
Nas artes marciais, o principal factor hierárquico é a antiguidade, seguido da idade. Muitas das artes marciais preservam um tipo de arte passada de geração em geração, que naturalmente se vai modificando ao passar dos anos. Não me parece correcto afirmar que "artes marciais são "mais eficazes" que os desportos de combate" ou vice-versa. Este factor depende dos instrutores e dos praticantes, não da arte ou do desporto. Nas artes marciais não interessa que o praticante seja "mais velho". Ele aprende formas técnicas, que pode limar ao longo da prática.

5. Graduação
Nos desportos de combate, o numero de vitorias é a principal forma de estabelecimento de uma ordem hierárquica. Nas artes marciais isto não é importante. É importante o factor "tempo", o tempo de dedicação á arte. Naturalmente que existem formas de competição "saudável", principalmente entre jovens masculinos, em que o grau de resistência a técnicas do parceiro são iniciadas e que servem para implementar um espírito de busca. Nas artes marciais passa-se os conhecimentos de uma forma muito mais personalizada ("ishin deshin"- da minha mente á tua mente", nas artes japonesas. Existe o espírito de procura, da técnica roubada ao mestre. Nos desportos de combate, o treinador deve fornecer ao praticante a maior quantidade de informações possíveis, por forma a que este obtenha um rendimento mais satisfatório.

6. Raízes
Normalmente as artistas marciais preocupam-se mais com o legado técnico da arte do que os atletas de desportos de combate. Muitos atletas de competição possuem um enorme lack no conhecimento histórico da arte que praticam. São artes do século XXI, espelham necessidades imediatas do nosso tempo. Não se emocionam com as raízes. O que interessa são os resultados imediatos. Nas artes marciais o estudo, a maturação interior são aspectos importantes no estudo da arte e que se reflectem na prática do individuo. O importante é o treino da persistência e da força interior. Á medida que o praticante vai alargando os seus conhecimentos técnicos da arte, vai igualmente "escavando" o seu interior e o da arte á qual se dedica. Este estudo pode incluir outras vertentes diferentes daquelas ás quais se dedica presentemente e mesmo artes consideradas opostas. Pode incluir o estudo de um cultura ou a de uma religião.

7. Espaço físico da prática
O artista marcial que o é na realidade, tenta explorar as formas de combate em todos os tipos de terreno possíveis, prevendo assim um ataque nas mais variadas situações. Verdadeiros artistas marciais dedicam-se muitas vezes a treinar nos ambientes mais inóspitos que a mente humana pode imaginar. Não poucas vezes, ouvimos falar dos monges de Shaolin a treinar em vasta vegetação, em terrenos escorregadios ou enlameados. Saito Sensei treinava na neve, mesmo quando a temperatura descia muito abaixo do humanamente suportável. O artista que não sai do dojo para treinar, sentir-se-á sempre confortável e não encontrará razões para evoluir. Como o artista marcial que treina somente com os colegas, num ambiente digamos "protegido". Quando treinamos com desconhecidos, o treino adquire naturalmente a faculdade de se aproximar-se mais do combate real. O atleta restringe-se ao espaço do ringue, como espaço imaginário de um outro. É um espaço de combate "recriado" como espaço-modelo
Não devemos pensar nas duas vertentes como completamente extrapoladas, pois ambas nasceram com o mesmo objectivo: a vida. Penso as duas vertentes como complementares. O ringue cria uma forma aproximada da realidade. Cria uma situação em que cada praticante atleta tem que por em pratica os seus adjectivos como artista. O ringue pode ser uma forma de completar o "do", e o "do" pode definitivamente criar uma maior consistência no praticante de artes marciais, de forma a que a sua técnica se aperfeiçoe e atinja uma maior pureza.





sábado, 6 de outubro de 2007

Artes Marciaia, Desportos de Combate e os Biberons e as Fraldas

Num desses foruns de opinião sobre as artes marciais portuguesas, um antigo colega perguntava á Monica Couto, instrutora de ju-jitsu como é que conciliava a maternidade com as artes marciais. Faltou pouco para me rebolar de riso. Devo esclarecer primeiramente que não sou simpatizante feminista. O antigo colega de treinos, arrogantemente machista mas sempre disfarçado de defensor dos direitos das mulheres, daqueles que assume os treinos femininos como treinos "técnicos" á partida e as instrutoras mulheres como instrutoras de infantis, carentes de resistência fisica, técnica e independencia suficiente para gerar uma carreira por si própria, denunciou aquilo que há muito deconfiávamos... Sempre apoiado na fisicalidade, surpreendi-me por reconhecer o mesmo discurso, passados tantos anos! Devo esclarecer que amo os meus inimigos quase tanto como os meus amigos. São eles que me obrigam a reflectir no que é ou não razoável, a saber medir com cuidado cada palavra dos meus discursos. Tenho pena de os ver fazer figuras obsoletas como esta! Os praticantes de artes marciais e desportos de combate, normalmente sabem identificar onde começa uma e termina a outra... Para quem entende que mulher grávida ou com filhos iguala o término da carreira marcial, então o que dizer das centenas de shihans que existem por este mundo fora? Desistem de uma arte á qual dedicaram uma vida? Por fisicamente terem deixado de reunir as capacidades de outrora? Obviamente que não. Todos nós gostamos de fazer ukemis altos, projectar com força, treinar atemis. Mas obviamente que este tipo de treino tem um prazo. Tal como o Verão tem um prazo, tal como uma gestação tem um prazo. É a Natureza! Há uma idade para tudo, para experimentar tudo. A idade de ser mãe é apenas uma delas. Dizer que é incompatível com o treino, seja ele qual for é um absurdo. Pela simples razão de que estudar uma arte marcial passa por muitas fases, ultrapasada mais uma, fazemos o balanço interior se aquilo que praticamos nos continua a encaixar. E assim se passam anos, décadas. A necessidade da fisicalidade continua a existir ou pode ser substituida por outro aspecto, mas normalmente vai-se esvanecendo com o tempo, numa proporção igual á que as capacidades técnicas se vão refinando. Lembro-me de um estágio que fiz já há alguns anos, com um mestre de renome, já falecido, mas que na altura ainda se movimentava com extrema dificuldade. Ingénuamente todos nós copiavamos a sua técnica altamente requintada, aprimorada ao longo de mais de cinquenta anos de prática, mas não era isto que ele pretendia! O mestre pedia que todos nós executássemos as mesmas técnicas em kihon, as projecçoes dele eram eficientes mesmo com a mobilidade reduzida, mas nós não. Teríamos ainda que treinar tanto ou mais do que ele para consiguirmos atingir o mesmo patamar técnico. Fico, nostálgica a pensar nos anos que passaram. Muitas vezes me perguntei o que seria feito deste personagem tão peculiar das artes marciais que vestia calças de ginástica por baixo do hakama, em vez das respectivas calças de gui. Há coisas que nunca mudam.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Birmânia



Desde 19 de Agosto de 2007, grupos de monges, activistas e cidadãos juntaram-se para protestarem contra a repressão no país, desde há cerca de 45 anos. Em 26 de Setembro, o governo militar birmanês respondeu com violência. Este tem sido um dos piores momentos da história deste país. Os esforços militares para controlar a zona esvaziaram quase 3.000 aldeias ao longo de uma década. Ao longo destes dez anos de opressão, a junta militar tem obrigado milhares de pessoas a mudarem-se constantemente, temendo os ataques. Os soldados birmaneses têm autorização para dispararem sobre civis. Mais de 500.000 pessoas foram desalojadas e vivem em constante instabilidade. Aqueles que são capturados pelo exercito são forçados a pactuarem com eles, perpetuando a violência, sob pena de serem torturados, mortos ou violentados.Chuah Sang, birmanês, foi meu colega uchideshi em Iwama. Até ao dia em que o conheci, o Burma era para mim um país demasiado distante, de onde só conhecia as mulheres-girafa. Agora o Burma tornou-se estrela dos canais televisivos pelos piores motivos. Admirei sempre a preserverança do Chuah, que num país de fraquissímos recursos conseguira realizar um sonho: instalar um dojo de Aikido, agora fechado. É por isso que os acontecimentos em Myanmar contêm um peso maior.
O Grupo de Aikido de Myanmar momentos antes de uma demonstração.
Em frente do Aikijinja, no Festival do Tai Sai, Iwama, Japão
Ajude um pouco o povo da Birmânia, assinando a petição aqui: http://www.thepetitionsite.com/takeaction/972303571?z00m=10257662
Aikido de Myanmar

Ginásio Clube Português, Um legado de todos os portugueses




"Ginásio Clube Português
Um legado de todos os portugueses


"O Ginásio Clube Português encerra na sua história o peso de mais de 130 anos de existência. É impossível falarmos da história do desporto português sem pronunciarmos este nome que por direito próprio ostenta uma reputação ilustre, fruto de uma paixão sem limites pelo desporto. Pioneiros na edificação de uma cultura desportiva foram criadores de riqueza incalculável para Portugal e para o mundo. Detentores de um longo currículo de vitórias e vitoriosos, o Ginásio Clube Português revela hoje o mesmo carisma herdado do seu fundador, Luís Maria de Lima da Costa Monteiro.
Na época não eram conhecidos os benefícios da actividade física e os praticantes contavam-se pelos dedos de uma mão. As únicas actividades físicas que se conheciam eram os ranchos, a lavoura e o jogo do pau. Só uma pequena parte da burguesia e da nobreza compreendia a sua importância e eram olhados com estranheza por uma Lisboa conservadora.
Luís Monteiro, o professor que ia a pé de Lisboa a Mafra
No fim do século XIX, Lisboa vivia dividida entre o fado, o Passeio Público e as touradas, aspectos que tão bem nos retratam o pintor Malhoa. O Chiado fazia as vezes de um centro comercial, mas o local de eleição era o Gymnásio Clube Português. A 18 de Janeiro de 1875, Luís Monteiro é o fundador de um pequeno estúdio na Carreirinha do Socorro, onde permanece vários anos como único professor cujos honorários eram aquilo que restasse depois de liquidadas as dívidas. A jóia de admissão de sócio era de 1000 réis e a mensalidade de 500. O professor Luís Monteiro também dava aulas de ginástica no Instituto Industrial e no Real Colégio Militar em Mafra, para onde, segundo se diz, ia e voltava a pé."

1929, Godofredo de Campos, "o rei do ok"


Foi Camilo Bouhon, sócio do Real Gymnnásio Club Português, praticante de halterofilismo quem apresentou o boxe aos colegas do clube que costumava frequentar. Levava para as suas sessões de treino os livros do escritor Le Ville, acabando por provocar uma verdadeira febre do boxe. Começaram a surgir grupos que imitavam as figurinhas dos livros de Bouhon e despertou um grande interesse pela modalidade, começando a formar-se núcleos em vários locais. Um deles, uma espécie de clube-irmão, já que tinha sido fundado por membros do Real Gymnásio era o Real Club de Velocipedistas de Portugal que começava também a dar os primeiros passos no boxe. A certa altura surgiu a ideia de organizar o primeiro torneio oficial, que teve lugar no picadeiro do professor de equitação João Cagliardi. Quando se quis organizar o 1º Campeonato Nacional, organizou-se um segundo torneio com lugar na sede do Real Club, promovendo a ocasião. O jornal Sport foi o organizador deste primeiro evento de grande envergadura para a época. O título foi disputado a 4 de Janeiro de 1906, no Salão Nobre do Teatro da Trindade, donde saiu vencedor Ribeiro da Fonseca, pertencente ao Club Naval Madeirense, clube muito mais modesto que qualquer um dos seus adversários. Mas o Real Gymnásio Club não suportou ver a taça noutras mãos, tal foi o alvoroço que levantou que conseguiu que se realizasse outro combate, confrontando o campeão com César de Melo, do Real Gymnásio, que não participou no primeiro por se encontrar doente. Os acontecimentos inflamaram os jornais da época, especulando sobre o vencedor. E foi assim que o Ginásio Clube Português, com teimosia conseguiu vencer o 1º Campeonato de Boxe!

Anos `90: Os campeões do judo do GCP


1900, atletas ilustres praticantes de Jogo do Pau no Sarau do Ginásio


"E as Artes Marciais e os desportos de Combate?"


"Apesar das medalhas da Catarina Rodrigues e do Rui Rosa, no que respeita a este capítulo, fica um certo amargo de boca. A especificidade tão característica das artes marciais cria confusão nas cabeças daqueles que estão habituados a olhar para o desporto competitivo. “Aquilo que eu sinto é que, enquanto as outras modalidades estão normalizadas pelas federações internacionais e tem que ser assim e ponto final, nas artes marciais, não. Cada mestre é uma escola.” Para a maior parte dos dirigentes desportivos habituados a lidar com resultados concretos atribuídos por júris é extremamente difícil conseguir avaliar a competência dos instrutores de artes marciais. Mas não é só. Ramiro Fernandes, tal como outros na mesma posição, está do lado certo, pretende seriedade, profissionalismo, boa conduta. As suas palavras acendem uma luz laranja que avisa que no futuro, muita coisa terá que mudar, pois persiste na mente de uma grande franja da nossa sociedade o preconceito de relacionar desportos de combate e artes marciais com um nível razoável de violência gratuita e falta de conduta. “Há artes marciais que não nos interessam, há coisas que não nos interessam... porque somos selectivos. Há “coisas” que nunca mais entrarão neste clube, pelo menos enquanto eu cá estiver. O vale-tudo, por exemplo. Boxe, houve aqui numa determinada altura, mas tem a ver com um determinado mestre. Cabe a cada um de nós modificar este estado de coisas. E agora! Chovam as propostas!"


Pode ler a reportagem integral na Revista "Boxing, Desportos e Fitness" do mês de Outubro de 2007
Próximas reportagens relativas ao Lisboa Ginásio Clube e Ateneu Comercial de Lisboa