sábado, 6 de outubro de 2007

Artes Marciaia, Desportos de Combate e os Biberons e as Fraldas

Num desses foruns de opinião sobre as artes marciais portuguesas, um antigo colega perguntava á Monica Couto, instrutora de ju-jitsu como é que conciliava a maternidade com as artes marciais. Faltou pouco para me rebolar de riso. Devo esclarecer primeiramente que não sou simpatizante feminista. O antigo colega de treinos, arrogantemente machista mas sempre disfarçado de defensor dos direitos das mulheres, daqueles que assume os treinos femininos como treinos "técnicos" á partida e as instrutoras mulheres como instrutoras de infantis, carentes de resistência fisica, técnica e independencia suficiente para gerar uma carreira por si própria, denunciou aquilo que há muito deconfiávamos... Sempre apoiado na fisicalidade, surpreendi-me por reconhecer o mesmo discurso, passados tantos anos! Devo esclarecer que amo os meus inimigos quase tanto como os meus amigos. São eles que me obrigam a reflectir no que é ou não razoável, a saber medir com cuidado cada palavra dos meus discursos. Tenho pena de os ver fazer figuras obsoletas como esta! Os praticantes de artes marciais e desportos de combate, normalmente sabem identificar onde começa uma e termina a outra... Para quem entende que mulher grávida ou com filhos iguala o término da carreira marcial, então o que dizer das centenas de shihans que existem por este mundo fora? Desistem de uma arte á qual dedicaram uma vida? Por fisicamente terem deixado de reunir as capacidades de outrora? Obviamente que não. Todos nós gostamos de fazer ukemis altos, projectar com força, treinar atemis. Mas obviamente que este tipo de treino tem um prazo. Tal como o Verão tem um prazo, tal como uma gestação tem um prazo. É a Natureza! Há uma idade para tudo, para experimentar tudo. A idade de ser mãe é apenas uma delas. Dizer que é incompatível com o treino, seja ele qual for é um absurdo. Pela simples razão de que estudar uma arte marcial passa por muitas fases, ultrapasada mais uma, fazemos o balanço interior se aquilo que praticamos nos continua a encaixar. E assim se passam anos, décadas. A necessidade da fisicalidade continua a existir ou pode ser substituida por outro aspecto, mas normalmente vai-se esvanecendo com o tempo, numa proporção igual á que as capacidades técnicas se vão refinando. Lembro-me de um estágio que fiz já há alguns anos, com um mestre de renome, já falecido, mas que na altura ainda se movimentava com extrema dificuldade. Ingénuamente todos nós copiavamos a sua técnica altamente requintada, aprimorada ao longo de mais de cinquenta anos de prática, mas não era isto que ele pretendia! O mestre pedia que todos nós executássemos as mesmas técnicas em kihon, as projecçoes dele eram eficientes mesmo com a mobilidade reduzida, mas nós não. Teríamos ainda que treinar tanto ou mais do que ele para consiguirmos atingir o mesmo patamar técnico. Fico, nostálgica a pensar nos anos que passaram. Muitas vezes me perguntei o que seria feito deste personagem tão peculiar das artes marciais que vestia calças de ginástica por baixo do hakama, em vez das respectivas calças de gui. Há coisas que nunca mudam.