
Hitohiro Saito Sensei, Rio de Janeiro, 2004
A primeira vez que recebi uma mensagem através de "haragei", daquelas nítidas, fortes e sem margens para dúvidas tremi da cabeça aos pés, pensei que concerteza tinha percebido mal...
Mas não, Hitohiro Saito Shihan, no estágio da AHAN, no Rio de Janeiro perguntava-me através de haragei "és mesmo tu que estas aqui???" Pensei: "Fantástico! O que estes japoneses inventam!" Realmente o "haragei" poupa imenso trabalho, para quê e-mail, cartas e post-its? É o método de comunicação do século 21!
HARAGEI: A importância do estômago sensível
Michihiro Matsumoto*, no seu livro "Haragei: a palavra não dita", define o haragei como a forma de influenciar e controlar os outros com base da psicologia da cultura tradicional japonesa e como uma demonstração de grande autoconfiança e coragem. A sociedade japonesa considera o estômago como o órgão central do corpo humano, enquanto os ocidentais preferem o coração. Existem inúmeras referências e ditados na cultura japonesa que se referem à importância do estômago como órgão emissor de sentimentos. Quando os samurais caiam em desgraça fatal era o abdómen que lhes era ordenado cortar, por ser considerado o órgão vital por excelência, que funciona como armazém de energia. O estômago é a fonte de coragem, generosidade, orgulho, amor e de uma qualidade muito específica da sociedade japonesa: haragei, que pode ser traduzida como "a arte do estômago", é uma espécie de sexto sentido. A primeira vez que um ocidental recebe uma mensagem através de haragei tal como eu tive a oportunidade de receber fica verdadeiramente aterrorizado, tal como eu fiquei. Depois passa a ser algo diário e depois passa a conseguir fazer o mesmo. É surpreendente! Viver no Japão e não desenvolver este outro sentido é quase como ser cego ou surdo. São aqueles com maior haragei que detêm um maior poder sobre si mesmas e sobre o grupo. Quando se quer demonstrar algum sentimento desagradável também é através do hara que esse sentimento é expresso. Não são precisas palavras. Quando se vive num país estrangeiro onde nos encontramos limitados pelo aspecto linguístico, acabamos por desenvolver faculdades que desconhecíamos. A característica telepática resulta da necessidade de se ser extraordinariamente prudente no discurso produzido, de forma a não afectar o sistema harmonioso exigido pela etiqueta japonesa. O uso das formas correctas de linguagem, no momento certo e da maneira certa é tão exigente que o mais seguro e efectivo para sobreviver é abreviar ou usar um discurso vago, permitindo que o interlocutor interprete as mensagens não-verbais, através da suposição, o que faz com que a maioria dos japoneses desenvolva um apurado sexto sexto sentido. Ninguém toma atitudes directas ou faz perguntas directas. A mesma palavra pode ter inúmeros sentidos. O silêncio é uma parte importante do discurso e pode igualmente representar uma infinidade de significados. Para se conseguir sobreviver é preciso desenvolver extraordinárias capacidades intuitivas e saber compreender a importância de factores tão subtis como o nível de linguagem adequado a cada pessoa, a importância do tom de voz, e das mensagens não verbais.
"Formas de comunicação não verbal como o haragei (a arte da comunicação subtil) e a "me wa kuchi hodo ni mono oii" (os olhos dizem tanto como a boca) são de uso constante e são usados para suportar o nosso ideal estético (…) O confronto é evitado, é desagradável para o nosso conceito de beleza." Kunihiro Masao in "The Silent Power"
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